Proteger, promover, acolher e integrar –  verbos da migração evocados por Papa Francisco- colocados em prática durante a missão internacional do Caminhos de Solidariedade.

A Missão Brasil-Venezuela foi uma das ações do Programa Nacional Caminhos de Solidariedade que ocorreu entre dos dias 8 a 15 de setembro em Ciudad Guayana, Ciudad Bolívar, Puerto Ordaz, El Tigre e Maturín. Essa etapa do Programa teve como proposta principal compreender o contexto sócio-eclesial que vivencia o país vizinho e colocar em prática uma das ações prevista para o Caminhos de Solidariedade: Promover o encontro entre as Igrejas de Brasil e Venezuela para que se implementem ações conjuntas de solidariedade para uma migração segura as pessoas venezuelanas.

Desta maneira, foram formadas duas equipes para percorrer diferentes Estados Venezuelanos, em busca de formar pontes entre Igrejas e articular o apoio mútuo entre as organizações que recebem migrantes venezuelanos e as organizações que busca alternativas comunitárias para que as pessoas que desejam ficar no país tenham esse direito garantido.  As equipes que se transladaram a Venezuela foram compostas por integrantes de organizações que pertenciam ao Programa Nacional Caminhos de Solidariedade: Afonso Brito (Cáritas Arquidiocesana de Manaus); Carlos Miguel Lopes ( Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados -SJMR); Daniel Dalmoro (SPM); Ir. Ires da Costa (SPM);  Maysa Oliveira (SJMR); José Roberval Freire (SPM) e Tainá Aragão (Cáritas Brasileira) e Valdiza Carvalho (Cáritas Diocesana de Roraima).

A primeira equipe, composta por Ir. Valdiza, Maysa, Daniel e Afonso esteve nos estados de Bolívar, nas cidades Ciudad Guayana, Ciudad Bolivar e em Tucupita, no estado de Delta Amacuro, em todas elas recebida pela Cáritas local. Em Puerto Ordaz e San Felix, município de Ciudad Guayana, a equipe teve contato com padres de seis paróquias – além do bispo da Diocese de Ciudad Guayana, Monsenhor Helizandro Terán –, que apresentaram um pouco da situação do município, inclusive de suas periferias, e conversaram sobre a questão das migrações e as ações empreendidas – dando destaque para o “banco de medicinas” e os comedores, espaços destinado a oferecer refeições para os mais empobrecidos.

Em Ciudad Bolívar a equipe conheceu dois hospitais públicos e algumas ações da desenvolvidas pela Cáritas local, que além do banco de medicinas a equipe acompanhou a distribuição de alimentos para crianças desnutridas na paróquia de Santa Edwiges e o projeto de cultivo agroecológico e preparo de galletas nutritivas de ajonjoli (biscoitos de gergelim) no asentamiento campesino de San Jose de los Báez. Em Tucupita, a ênfase foi conhecer a realidade dos indígenas da etnia Warao, cidade na qual recentemente a Cáritas se instalou. Além de conversas com monsenhor Ernesto Romero, a equipe foi acolhida por Pe. Chrispine Okello, da Paróquia San José, que nos levou para conhecer as comunidades de El Volcan, e de Yakera Wuito, onde acontecia a celebração da Virgem de Coromoto – padroeira da Venezuela -, e também eram o estúdio de atuação da Rádio Fe y Alegría, vinculado a Companhia Jesuíta da Venezuela.

A segunda equipe teve como missão visitar dois Estados venezuelanos: Anzoátegui e Monagas. No primeiro momento, a equipe formada por: Carlos, Ir. Ires, Roberval e Tainá foram acolhidos pela Diocese de El Tigre, com orientação do Padre e coordenador da Cáritas Diocesana Juhan  Hernández. Durante a missão na cidade, a equipe visitou diversos espaços que estão sendo impactados pela escassez de insumos: hospitais e ambulatórios que sofrem com a falta de medicamentos e equipe especializada, o Instituto nacional de servicios sociales geriatricos – (estabelecimento público que acolhe idosos), o Centro para la Atención de Salud Mental, e os estabelecimentos de atuação da Cáritas, que conta com um ambulatório para atendimentos médicos básicos .

Além disso, a equipe acompanhou a distribuição de sopas no bairro periférico Bicetenario e participou de um processo de escuta de boa parte das paróquias da Diocese, que contribuiu para que se compreendesse com profundidade as problemáticas da crise nesta região. Houve também o encontro com o Bispo de El Tigre, monsenhor José Manuel Romero  e a participação das celebrações eclesiais em comemoração da padroeira da Venezuela, que significou o fechamento da missão em El Tigre.

No estado de Monagas a equipe contou com o acompanhamento central do Padre e Coordenador da Cáritas Diocesana, Manuel Gerínimo Sinfontes. Esta visita compreendeu a cidade de Maturín, capital de Monagas, onde se conheceu especialmente as metodologias adotadas pela Cáritas para a distribuição de alimentos a crianças desnutridas. Os alimentos são destribuidos a partir do Sistema de Alerta, Monitoreo y Atención en Nutrición y Salud (SAMAN) gerido pela Cáritas da Venezuela, que atende cerca de 664 crianças em toda a diocese. Durante a missão desta cidade também houve o compartilhamento de informações sobre o contexto migratório de Boa Vista para o Bispo de Maturín: monsenhor Enrique Perez e integrantes da comunidade, que em contrapartida também informaram as mobilizações realizadas pela Igreja para acompanhar as famílias que possuem familiares migrantes, uma das iniciativas adotada foi a Compartir 2019: La imigración forzada de Venezuela: ancianos y niños dejados atrás.

Nas duas ocasiões, além do encontro com as realidades socio-eclesiais, as equipes tiveram  a  oportunidade de conhecer -a partir de relatos e experiências das famílias venezuelanas- os contextos que impulsionam a migração venezuelana para o Brasil: ligadas umbilicalmente a falta de insumos de saúde e acesso básico à alimentação.

CAMINHAR E INTEGRAR:  O Programa Nacional Caminhos de Solidariedade é composta por diversas organizações da Igreja que trabalham no acolhimento direto e indireto de migrantes e refugiados no Brasil, sendo parte do Comitê Gestor: Cáritas Brasileira; Cáritas Diocesana de Roraima; Instituto Migrações e Direitos Humanos; Serviço Jesuíta para Migrante e Refugiados e Serviço Pastoral dos Migrantes, apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Campanha da Fraternidade.

Em outubro de 2018 deu-se início ao Caminhos de Solidariedade, Programa de resposta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ao  atual contexto migratório venezuelano. O recurso para execução do Programa se deu por meio do Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) que destinou 40% da arrecadação da Campanha da Fraternidade para a efetivação de ações voltadas à migração. Durante o seu percurso, o Programa cumpriu o objetivo de contribuir com a acolhida e fortalecimento de ações de integração, visando o acolhimento digno aos migrantes em vulnerabilidade social, especialmente aos de nacionalidade venezuelana que ingressam por Roraima, estado que faz fronteira com a Venezuela.

A Missão Brasil-Venezuela significou uma experiência de imersão autêntica e profunda, que tende a fortalecer o intercâmbio solidário entre Igrejas. A partir deste encontro, a expectativa é estimular parcerias para atividades e ações futuras, visando o melhor proteger, acolher, integrar e promover: práticas transformadoras que garantam uma vida digna e socialmente justa para todos e todas, encontrando, desta maneira, possibilidades comunitárias para este cenário de crise.

Por: Tainá Aragão e Daniel Dalmoro